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  • Foto do escritorHellen Albuquerque

Para vestir o interior: um vestido de noiva e muitos costumes


Os Beatles acabam com uma bala, já no Brasil os tiros cessam com o fim da Ditadura Militar. O Muro de Berlim cai, enquanto A-ha e Duran Dura marcam a trilha sonora. “Estamos falando dos anos 1980, mas é preciso lembrar que estamos em Mandaguari”, ela me interrompe.

Município do interior norte do Paraná, assim como acontece com a capital, a origem do seu nome é indígena. Mandaguari é como os índios chamavam uma abelha, Curitiba é como indicavam a grande quantidade de pinhão. Grande parte das histórias se passa em uma única rua, que é também o centro. A Avenida Amazonas liga uma ponta da cidade a outra, é por onde se entra, se sai e se vive. É onde também nasce o vestido.

No único ateliê da cidade, Maria Augusta unia cetim, renda e tafetá para montar as alegorias do casamento há 55 anos atrás.

“A Maria Augusta era uma mulher forte e muito, muito inteligente, pois antes mesmo de começar a vender vestidos de noiva, já havia feito o dela e das irmãs”, conta Adriana. Quando já não mais respirava, por isso também não tecia, foram as noras que assumiram o posto. Adriana e Leila mantém o mesmo local na Avenida atualmente, com diferentes vestidos e noivas. Acho que elas nunca viram o vestido.

Como todo interior, seja do mundo ou da gente, existem os caminhos e formas a serem traçados. Como manda a tradição, o casamento no papel acontece pela manhã, seguida por uma cerimônia durante a tarde. “Acredito que seja melhor que cidade grande, afinal somos mais conservadores, então o casamento tradicional aqui existe em maior proporção”, Leila ainda se satisfaz por proporcionar esta alegria para as noivas.

Talvez seja a pequenez da cidade que nos faça ficar mais próximos. “As pessoas são mais generosas lá, tem mais carinho, elas demonstram amor”, ela me afirmou bem pensativa, como quem viaja por contos. O casamento pode ser entidade falida em todas as partes do mundo, mas não ali. “Um casamento atrás do outro”, disse alguém sobre a frequência. Em todos esses, existem vestido. No fluxo intenso, um em especial. Mas tem mesmo que casar?

O vestido de noiva, ousado para sua época, tinha mangas bufantes como pedia Madonna.


Ela me disse que não. “Essas coisas são uma escolha, né?! Eu mesma não queria casar. Casei tarde pra época, com 25 anos”. O primeiro casamento que assistiu foi aos 11, era a união de sua irmã mais velha. Nunca nem tinha presenciado, quanto mais sonhado, no que usaria quando o dia dela chegasse.

Não era branco, como de costume, mas pérola. Tinha as mangas bufantes, como se o volume anunciasse o peso que carrega nos ombros. Guardava o colo e pescoço com renda, para depois se abrir na cintura com uma saia rodada. Lhe faltava véu ou qualquer coisa que arrastasse pelo chão. “Nunca gostei de nada arrastando”. Já existe muita coisa difícil pra querer mais uma te prendendo.

Deixava os pés livres, pedindo por caminhadas longas que iam além de um altar, e os tornozelos ficavam a mostra.  “Isso era muito diferente pro pessoal”, ela dá risada. “Mas eu gostava de coisas diferentes”.

O Vestido de Noiva chegando devidamente vestido.


Foi criado a mão porque precisava ser pequeno para bem vestir. “Sempre fui muito pequena, procurei por todo canto, em outras cidades, algo que me servisse. Não tinha”, me falou. A inspiração não veio de nenhum ícone pop, embora Madonna trajada de noiva estivesse se sentindo como virgem na época.

Mas lá no interior não havia cinema. Pouco se tinha de informação, referências vinham de revistas guardadas por Maria Augusta. Via-se o que ali estava, eram feitas algumas alterações vindas da criatividade. O vestido ganhou pregas na parte da frente, um pedido tão inusitado quanto seu comprimento.

Era um sábado de novembro e chovia quando ela finalmente o usou. Mas isso já faz tanto tempo, que quase não faz diferença. Muita coisa mudou. “O padre já está caduco”, contou Lautir, mas a igreja ainda está lá.

De alguma forma o vestido veio parar em Curitiba. Sem vestir, mas dentro de caixa. Saiu de um mundo pequeno para outro menor ainda, em algum canto da memória. Talvez fosse muito curto para viver no interior, precisava caminhar. “Mas ele ainda me serve!”, disse Maria Helena orgulhosa. “Não quer tirar uma foto?”. Hoje não, respondi, quem sabe outro dia. Minha mãe trouxe pra cá o vestido e minha vida ainda inexistente veio junto.

É notável que a ousadia só precisa de alguns centímetros. Enquanto em Mandaguari isso significa uma barra mais curta, talvez em Curitiba seja exatamente o véu e grinalda.

Agradecimento especial à minha família que se movimentou lá do norte para que a história fosse contada aqui na capital, obrigada Madrinha e prima <3

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