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  • Foto do escritorHellen Albuquerque

Roupas contam histórias: uma camiseta, três décadas


Qual a cor da realeza? Como é o traje de um samurai? Duma gueixa? Como encontrar um punk na multidão? Roupas contam histórias antes que a boca abra e a palavra se escreva. Não é preciso pensar muito, nem viajar tão longe em séculos para aprender a lê-las.

Minha mãe, bem como minha família toda, vem de uma cidade no interior do Paraná, Mandaguari – terra de quem tem pés vermelhos. É daquelas cidades absurdamente quentes, o único alívio são os sorvetes ditos italianos vendidos nas pracinhas. O centro é na verdade uma rua, onde fica a igreja e as feirinhas de domingo. Ah, os domingos! É dia de comer pizza com os amigos, todas as moças e moços bem arrumados. Mais tarde, tem baile no Clube Recreativo.

No fim dos anos 80, auge dos Menudos e saias longas, minha mãe – que ainda nem sonhava com a maternidade – ganhava as ruas da cidade com os cabelos cacheados. Maria Helena, 23 anos, passeando pelas ruas sem asfalto viu um conjunto de camiseta e saia com listras vermelhas na vitrine de uma lojinha de bairro. Ela que, mesmo vivendo no interior, não se perdia das tendências adquiridas pelas novelas de televisão, logo se encantou. Esperou o próximo salário e foi até o Bazar Rio de Janeiro, comprou as peças com a alegria do dinheiro suado.

Minha mãe com meu pai sendo descolados in the 90’s


Até aí tudo bem, moça bonita comprando roupas, quem nunca?! O curioso dessa historinha é que 27 anos depois, eu, cria de Maria Helena, uso parte do conjunto. Feita com malha poliviscose, a camiseta persiste até hoje intacta, tão branca e vermelha quanto nos tempos que Take on Me do A-ha era o hit de maior sucesso nas rádios. Não se engane pensando que minha camiseta é assinada por um grande nome, a obstinada nem etiqueta tem – coisa que só serve para pinicar e tentar justificar estilo de quem não o possui. A saia se perdeu na família, voltando a sua cidade natal, no corpo de não sei quem, mas a blusa… Uso e abuso. O corte é clássico, com a gola canoa – uma das mais confortáveis. O tecido com listras se mistura no estilo navy e o caimento é daqueles que se ajusta naturalmente, obra de uma costureira que sabe o que faz.

Quase três décadas depois, uma única peça de roupa viajou de algum ateliê de cidade interiorana, entre outros tecidos e linhas, para ganhar a capital do Paraná. Passeia comigo nos dias quentes, que nem de longe se comparam ao de seu local de origem, mas que arrancam sorrisos de mim, quem a usa, e dos outros quando ouvem:

-Ah, gostou?! Era da minha mãe, antes de eu nascer…

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